Breno Ruschel, amigos para sempre.

por Rafael Valles

Quando penso no Breno (1937-2026), penso na beleza do acaso, no poder improvável das rotas que se cruzaram e que por um detalhe poderiam sequer ter acontecido.

Conheci ele em 2000, no último ano do ensino médio (na época, segundo grau), quando o saudoso grupo do qual eu participava (o Grupo de Pesquisa em Ciências Sociais do Colégio La Salle Dores, capitaneado pela nossa queridona professora de História e hoje grande amiga Simone Paixão), estava em pleno processo de criação do documentário “Almarquitetoreconstituipoa (meu primeiro trabalho audiovisual). Precisávamos de um ator para fazer a narração final do filme, alguém que desse aquele toque especial sobre o tema que tanto nos mobilizava naquele momento: os patrimônios históricos abandonados de Porto Alegre. Sem saber quem poderia ser este ator, fui até a Casa de Cultura Mário Quintana buscar nomes que poderiam ser recomendados. Encontrei por lá o ator Mauro Soares, que possivelmente naquele período estava em algum cargo do estado ou do município, motivo pelo qual cheguei até ele. Mauro acabou indicando dois nomes: Luiz Carlos Magalhães e Breno Ruschel.

Ao entrar em contato com o Breno, tive um primeiro impacto. Quem o conheceu, lembra muito bem que ele tinha essa particularidade de sempre atender uma chamada telefônica com um “sim” antes de um “olá” ou “bom dia”.  Esse “sim” e o que seguiu daquela chamada veio com um tom de voz grave, imponente, e ao mesmo tempo, acolhedor, caloroso, natural, perfeito para o que buscávamos (não por acaso um dos seus grandes sonhos era trabalhar como locutor de rádio).

Breno se mostrou agradecido, receptivo, mas por questões que não recordo com precisão, não foi possível contar com ele para recitar o poema “No tempo da flor”, do poeta Augusto Meyer. O filme perdeu a possibilidade de contar com a sua voz, com a sua emoção, mas algo foi semeado naquele momento. Ao longo dos meses, mantive contato, o convidei para assistir a apresentação de uma peça de teatro que fizemos na escola, ao lançamento do filme na Casa de Cultura Mário Quintana… porém, nada dele. Nesse meio tempo, mais chamadas telefônicas e mais conversas sobre o que de fato nos conectou profundamente: o cinema.

Recém ingressando na faculdade de jornalismo no ano seguinte, lembro de um dia ligar pra ele e pedir que me comentasse sobre alguns filmes e cineastas. Para desespero da minha mãe com a conta telefônica, ficamos mais de uma hora no telefone falando sobre diretores como Theo Angelopoulos, Andrei Tarkovski, Ingmar Bergman, todos nomes que naquele momento eram novidade para mim, mas que já faziam parte do seu repertório há muito tempo.

Quando por fim nos encontramos pela primeira vez, as referências prosseguiam, as conversas fluíam, as afinidades se encontravam.  Não é exagero dizer que grande parte da minha formação em cinema e teatro vieram desses encontros, das nossas idas ao cinema que se tornaram um hábito, das idas posteriores ao Bar do Beto, ao Bauru Country, a Torre de Pizza, para seguir analisando cada novo filme visto no Guión, no Unibanco Arteplex, na PF. Gastal, no Santander, na Cinemateca Paulo Amorim. Foi com ele que entendi o sentido da incomunicabilidade em Antonioni (sessão de “A noite” na Cinemateca Paulo Amorim), que senti paixão a primeira vista com o cinema argentino (sessão de “O filho da noiva” no Unibanco Arteplex), a satisfação em assistir cada nova estreia de um filme do Eduardo Coutinho (sessão de “Jogo de Cena” na sala P.F. Gastal), o impacto emotivo ao assistir pela primeira vez “Elena” (sessão no Santander Cultural).

Lembrar com precisão as sessões que assistimos destes e tantos outros filmes colocam em evidencia como a minha paixão pelo cinema passou por estes momentos. Agora que lido com a condicão do teu falecimento, a memória vai me puxando cada vez mais para tempos distantes. É como se a memória afetiva tivesse adormecida e agora despertasse com toda força para dizer o quanto esses momentos foram determinantes para mim. “Rafael, como não falar de cinema se é uma maneira de saber quem sou. Espero que contigo seja o mesmo, pois é um mundo maravilhoso”, escreveu ele na primeira página de “A palavra náufraga”, livro que me deu de presente no Natal de 2001, composto de textos do crítico de cinema Antonio Gonçalves Filho. “Rafael, para continuar contando e criando histórias para o teatro, cine e outros tantos mais”, escreveu para mim no livro “Como contar um conto”, de Gabriel García Marquez, que me presenteou no meu aniversário em outubro de 2002. Isso sem falar de Brecht, Strindberg, Ibsen, Tchekhov, cada livro que ele me emprestava abria um novo mundo para mim.

Foto: retrato Breno, no Anfiteatro, em frente ao rio Guaíba, Porto Alegre.

Com o tempo, estes encontros ganhavam todo um outro tempero a medida que ia conhecendo sua trajetória pelo cinema e pelo teatro gaúcho. Breno teve uma das trajetórias mais curiosas que pude conhecer até aqui. Como conciliar um oficial do exército e um ator numa mesma pessoa? Sim, ele conseguiu! Durante trinta anos trabalhou como datiloscopista no Exército. Breno era perito em reconhecimento e classificação de impressões digitais. Ele entendia bem a importância que o exército teve na sua vida, a oportunidade que lhe deu tanto para sair da sua terra natal Venâncio Aires e vir para a capital Porto Alegre, como para construir uma vida que lhe deu estabilidade. Como trabalhava desde os onze anos de idade para ajudar nas economias da casa (seu pai faleceu quando ele tinha somente quatro anos de idade), o tema financeiro sempre foi uma fonte de preocupação e que determinou sua trajetória (quando garoto, tudo o que ganhava dava para a sua mãe). Breno sempre falava de um tema em particular que o divertia nesse período no exército: os cafés que tomava nos intervalos com Volnyr Santos, que também trabalhava no exército e que anos depois construiu uma exitosa carreira acadêmica na literatura. Como bons amantes das artes, ambos encontraram suas liberdades poéticas em meio a rigidez dos coturnos e dos uniformes de trabalho.

Mas o que sempre curti foi escutar as suas histórias como ator no teatro e no cinema gaúcho. Formado em artes dramáticas no DAD/UFRGS e posteriormente em jornalismo pela PUCRS, ele trabalhou ao longo dos anos 70 e 80 em momentos importantes do teatro gaúcho, em peças como “O inspetor geral”(1978) e “Antígona” (1979), ambas dirigidas por Luiz Paulo Vasconcellos, “Inimigos de classe” (dir. Luciano Alabarse), “A maldição do Vale Negro” (1988, dir. Luiz Artur Nunes), “Merlin ou a Terra Deserta” (1985), entre outros. No cinema foi muito atuante em trabalhos da nova geração de cineastas porto-alegrenses que surgiram nos anos 80. Cada vez que o curta metragem “Temporal” – debut cinematográfico de Jorge Furtado e José Pedro Goulart -, aparecia nas nossas rodas de conversa, Breno abria um largo sorriso ao lembrar do grito de guerra do seu personagem: “Latinidade! Latinidade!”. Sua voz poderosa e o bigodón “a la Olivio Dutra” conferiam traços marcantes aos personagens que interpretou, em filmes como “Me beija” (dir. Werner Schünemann, 1984), “Verdes anos” (dir. Carlos Gerbase e Giba Assis Brasil, 1984), “O gato” (dir. Saturnino Rocha, 1988), “Bola de fogo” (dir. Marta Biavaschi, 1997), entre outros.

Frame do filme “Temporal” (dir. Jorge Furtado, José Pedro Goulart, 1984)

Quando o conheci, Breno já vivia um outro momento na sua trajetória. Mais afastado dos trabalhos no cinema e no teatro, ele me apresentou um outro ofício artístico: Contador de Histórias. Como ele comentava, sentia estar desfrutando como nunca antes os trabalhos que surgiram graças a um convite para atividades no EJA (Educação de Jovens e Adultos), modalidade de ensino voltada para quem não concluiu ou não teve acesso à escola na infância e na adolescência e que permitia a retomada dos estudos, desde a alfabetização básica até a conclusão do Ensino Fundamental e Médio. Breno me comentou muitas vezes que uma das maiores emoções da sua carreira foi realizar leituras de textos de alunos adultos que recém estavam sendo alfabetizados. Sem os holofotes dos palcos de teatro ou dos sets de filmagem, eu descobria nele algo que me marcou profundamente: a sua generosidade.

Os convites que recebia para fazer leituras eram contínuos, em diferentes lugares, projetos e parcerias, como foi o caso dos trabalhos apresentados em conjunto com o músico Johann Alex de Souza e a atriz Leonor Cabral de Melo. Em alguns destes projetos tive o prazer de participar também, como foi o caso da leitura dramática de trechos da novela Noite, de Érico Veríssimo, no Auditório do Mercado Público, como parte do projeto “Noite na Taverna”, que visava divulgar textos literários relacionados a história e a cultura do Mercado e da cidade.  

Foto: Breno com Johann Alex, em apresentação no Acampamento Farroupilha.

Também tive a honra dele ter me convidado para dois projetos muito especiais. O primeiro foi escrever um texto em homenagem a imigração açoriana, que foi apresentado no Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo, na 43ª Semana de Porto Alegre, como parte das celebrações pelos 230 Anos da cidade e 250 anos de povoamento açoriano. Ainda lembro muito bem de Johann Alex e Breno cantando neste espetáculo a canção “Os Argonautas”, de Caetano Veloso, com o refrão “Navegar é preciso / Viver não é preciso”.

Outro momento marcante foi o convite que ele me fez para escrevermos uma peça de teatro que concorreu e ganhou o prêmio PalcoHabitasul de Teatro, em 2002. A partir de uma adaptação livre do conto “Eu te amo”, de Thenio Francisco Clamer Fonseca, assumimos o desafio de criar a história de Janete, uma moça vinda do interior que “queria ganhar o premio do Correio do Povo de A mais bela comerciária do Rio Grande do Sul, mas que precisou se contentar com a faixa de Miss Simpatia”, que tinha como inspiração a Eva Perón, mas que necessitava se contentar com a condição de amante de um político influente numa sociedade machista ambientada na Porto Alegre dos anos 50. Nos dedicamos com muito carinho a este trabalho, Breno teve a linda ideia de ambientar esta história na Porto Alegre dos anos 50/60 enquanto um período de transformação na cidade e no imaginário da sociedade. Coube a mim um trabalho de resgate histórico, de idas continuas ao Museu Hipólito da Costa para resgatar recortes de imprensa daquele período. Deste trabalho resultou o Prêmio Palco Habitasul e o privilegio do espetáculo realizar a sua estreia no palco do Theatro São Pedro.

Foto: reportagem do jornal Correio do Povo, 11.07.2002.

Nossas parcerias seguiram firmes. Entramos juntos na oficina literária do escritor Charles Kiefer; escrevemos o roteiro de “Carcaças”, projeto que nunca filmamos, mas que fizemos até um trabalho de scouting e de storyboard nas ruas e dunas de areia de Balneário Pinhal; ele me ensinou a registrar imagens com máquina fotográfica analógica, fator fundamental para o meu trabalho de conclusão na disciplina de fotografia, no curso de jornalismo.

Chegando no ano de 2006, Breno e meus pais foram os grandes incentivadores para que eu fosse estudar cinema na Argentina, uma mudança de rota radical que se mostrou fundamental para minha trajetória. Foi nesse contexto que decidi convidá-lo para um projeto que marcaria profundamente nossa parceria. Comecei a elaborar o roteiro do curta metragem “Amélia &Pippo”, para um curso de direção de atores no Centro Cultural Rojas, que naquele primeiro momento não foi realizado. Breno se enganchou muito com a história de dois dançarinos que decidem retomar suas carreiras e acabam se reencontrando por acaso num casting para uma publicidade.

O resultado de Amélia & Pippo se divide em duas partes, ambos muito especiais. A primeira é a versão argentina. Graças ao Taller MS do cineasta e querido maestro José Martínez Suárez pude produzir este projeto, resultando no meu primeiro trabalho na Argentina e em muitas conquistas, como a seleção do curta em tradicionais festivais de cinema, como é o caso do Festival de Cinema de Viña del Mar (Chile) e o Festival Latinoamericano de Trieste (Itália), assim como a exibição no tradicional Cineclub Núcleo, em Buenos Aires (para quem quiser assistir, repasso aqui o link do filme: https://youtu.be/jFJklSuIMnk).

Já na versão brasileira, o projeto contou com a parceria da produtora Accorde Filmes de Paulo Nascimento e ficou entre os dez projetos selecionados do saudoso Histórias Curtas, da RBSTV. Na versão brasileira tive a grande alegria de pela primeira vez dirigir ao Breno, assim como a querida atriz Araci Esteves. Lembro até hoje da alegria dos encontros entre nós três, de como fomos criando um belo ambiente de trabalho entre cafés e bolos de laranja e de como esse trabalho rendeu um merecido reconhecimento ao Breno. Sem ele não existiria Pippo, Amélia, festivais de cinema, Histórias Curtas. Sem a sua experiência de vida, de contar histórias, de entender com profundidade as emoções e psicologias destes personagens, o projeto não alcançaria o que alcançou. Amelia & Pippo evidenciou a solidez da nossa amizade, da nossa parceria, das nossas afinidades (para quem quiser assistir, repasso aqui o link do filme: https://youtu.be/0F4EYsimbs0).

Ainda me lembro das muitas tardes que trabalhamos o roteiro na sua casa e o ajudei a memorizar seus diálogos, pois ele se sentia um pouco pressionado frente a um roteiro com muitas falas e a um cronograma muito ajustado de gravação. Durante as filmagens, Breno não falhou uma única vez, esteve sempre a postos e com o texto na ponta da língua. Esse desafio foi também uma vitória pessoal dele, comprovando a si próprio que sua habilidade em memorizar textos e interpretá-los com emoção seguia intacta, aos 73 anos de idade.

Frame do filme Amélia & Pippo (dir. Rafael Valles, 2010).

Eu poderia seguir falando muito mais sobre ele, sobre as lindas viagens que compartilhamos mundo afora, sobre as muitas visitas dele a BSAS e nossas sessões continuas no BAFICI (festival de cinema independente de Buenos Aires), sobre os lindos encontros entre amigos no Armazém da Esquina nos happy hours, sobre como ele se tornou uma parte fundamental da minha família e do que sou hoje… A imagem mais marcante que tenho dessa amizade é como a sua energia positiva, seu poder motivador, seu carisma levaram um jovem cabeludo, com piercing no nariz, cheio de espinha na cara e muito tímido, vindo da serra gaúcha e cuja rotina era estudar jornalismo na faculdade e trabalhar na loja de vinho e produtos coloniais dos pais, a querer sonhar. Breno me mostrou que os sonhos são para serem realizados, para serem buscados.

Foto: Lançamento do meu livro “Ensaio sobre o Grito” (Feira do Livro de Porto Alegre, 2021)

Como toda amizade que se preze, vivemos momentos difíceis, desafiadores, mas sobretudo, celebro hoje os momentos gratificantes, especiais. Atravessamos mais de duas décadas com muitas histórias por contar, com lembrancas que ficarão guardadas com carinho na memória. Como, por exemplo, o nosso último encontro presencial, quando fui até a sua casa para mostrar o filme que realizei, “Mario Arregui & Sergio Faraco – amizade sem fronteiras”. Ele ficou feliz, eu fiquei feliz. João Breno Ruschel está presente neste filme, como em todos os outros trabalhos que realizei até aqui e os que ainda virão. Se ainda sigo sonhando, contando histórias, é porque aquela chama que foi acesa por ele segue firme e forte.   

CURSO ONLINE: “AS ESTRUTURAS DRAMÁTICAS NO CINEMA DOCUMENTAL”. com Miguel Pérez e Rafael Valles


APRESENTAÇÃO
Entre os dias 5 a 26 de janeiro será realizado o curso online AS ESTRUTURAS DRAMÁTICAS NO CINEMA DOCUMENTÁRIO, pelo renomado docente, editor e diretor argentino Miguel Pérez (diretor de “La república perdida”, filme com mais de um milhão de espectadores, até hoje o documentário com maior bilheteria na história do cinema argentino) e pelo docente e documentarista brasileiro Rafael Valles. Num total de quatro encontros a serem realizados sempre as segundas, de 19h a 22h, via plataforma Zoom, o curso pretende apresentar e analisar os princípios básicos para a estrutura dramática e narrativa num documentário, com enfoque na elaboração dos personagens e na construção do conflito que proporciona caminhos para emocionar, questionar ou provocar outros olhares sobre o real.

PÚBLICO-ALVO
O curso é aberto tanto para documentaristas, profissionais do audiovisual, como para estudantes, cinéfilos e público em geral que não possuem formação acadêmica ou profissional sobre o tema. O curso será bilingue (português e espanhol), não é necessário ter conhecimento prévio em espanhol.

METODOLOGIA
Os encontros serão em formato expositivo. Cada encontro se concentrará em um ou, no máximo, dois filmes. As obras serão exibidas integralmente e analisadas, com intervenções do docente para destacar determinados aspectos relacionados ao tema de cada sessão.


PROGRAMAÇÃO

Conteúdo completo e distribuição do tempo:

Unidade 1
O que é uma estrutura dramática?
Semelhanças e diferenças entre a estrutura de ficção e a de documentário.
O conflito
Conflito central e conflitos subsidiários
Tipos de conflitos segundo os papéis dos personagens.

Unidade 2
Aparição do conflito: ponto de ataque, sua determinação
Apresentação
Desenvolvimento: golpe e contragolpe, tese e antítese
Progressão e crescimento da tensão.

Unidade 3
Pontos de virada
A crise
Clímax e resolução
Solução dos conflitos subsidiários
O saldo.

Unidade 4
Conflito central. A unidade
Crescimento do conflito:
Conflito crescente ou progressivo
Conflito em saltos
Conflito moroso ou estático
A digressão – desenvolvimentos desnecessários: personagens, conflitos subsidiários.


INFORMAÇÃO ADICIONAIS: 

DURAÇÃO: 4 encontros (segundas, 5 a 26 de janeiro de 2026, de 19h a 22h).

VALOR TOTAL: R$ 350,00 (Via Pix ou depósito).

INSCRIÇÃO: ra.valles@hotmail.com

OBS.: As classes serão gravadas e ficarão disponíveis online ao longo de uma semana após a sua realização, exclusivamente para as pessoas que se inscreveram no curso.

Biografia dos ministrantes:

MIGUEL PÉREZ: argentino, nasceu em Buenos Aires. É professor de Montagem e Estrutura Dramática e Chefe (honorário) de Cátedra na Escola de Cinema e TV de San Antonio de los Baños, Cuba. É professor do curso de Montagem da Escola Nacional de Experimentação e Realização Cinematográfica (ENERC), vinculada ao Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais (INCAA). É Professor Titular da Cátedra de Montagem na UNA (Universidade Nacional das Artes). Desde 1992 até a atualidade, atua como Coordenador e Professor do Seminário “Montagem e Estrutura Dramática” na Universidade do Cinema.

Paralelamente, ministra cursos privados na área e realizou aulas magnas e seminários em numerosas instituições do país e do exterior. Em 2015, recebeu o prêmio da CILET (International Association of Cinema, Audiovisual and Media Schools, a maior organização de Escolas de Cinema do mundo), como um dos três melhores professores internacionais daquele ano.

Como montador, participou de cerca de 600 filmes publicitários, 40 curtas-metragens artísticos ou educativos, minisséries e de 59 longas-metragens, documentais ou de ficção. Também atuou como assessor de montagem e estrutura dramática, e como diretor do documentário “La República Perdida” (Partes I e II), que recebeu diversos prêmios em seu país e no exterior. Atualmente, encontra-se realizando a Parte III desse filme.

RAFAEL VALLES: brasileiro, nasceu em Caxias do Sul/RS. Documentarista, pesquisador, docente, escritor. Doutor em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PPGCOM/PUCRS – 2018). com Doutorado Sanduíche no Departamento de Periodismo y Comunicación Audiovisual, na Facultad de Humanidades, Comunicación y Documentación, na Universidad Carlos III de Madrid. Mestre em Cinema Documentário pela Fundación Universidad del Cine (FUC/ Buenos Aires, Argentina – 2011). É professor na UNA (Universidad Nacional de las Artes, Argentina), no Mestrado em Cinema Documentário (FUC-Universidad del Cine, Buenos Aires), além de ter ministrado cursos para entidades como Museu da Imagem e do Som MIS-SP (Tendências do Cinema Documentário, 2023) e Instituto Estadual de Cinema IECINE (Repertório de Filmes Documentários, 2022).

Realizador dos filmes “Mario Arregui & Sergio Faraco – amizade sem fronteiras (2024) – Vencedor no Prêmio de Melhor Documentário Experimental no 18º Atlantidoc – Festival Internacional de Cine Documental de Uruguay (2024) -, “Frank & Plato e Empresa Pimenta: Futuristas Antiquados ou Todavia Crocantismo” (2023), “Ensaio sobre o grito” (2022) – Vencedor no Prêmio de Melhor direção em curta de animação no 9º Santos Film Festival (2023) -, “Em busca de Jonas Mekas” (2020), “Memorias de un sombrero” (2010), “Amelia e Pippo” (2010), entre outros. 

Autor da biografia “Fotogramas de la memoria – encuentros con José Martínez Suárez” (Argentina, INCAA-ENERC, 2014) e do livro de contos “Ensaio sobre o grito” (Ed. Metamorfose, 2021). Também organizou o livro “50 olhares sobre o cinema gaúcho” (ACCIRS, 2022).  

Oficina de Escrita para Projetos Documentais

Todo documentário precisa partir de uma ideia. Através de uma ideia, começam a ganhar forma os objetivos, as intenções, as escolhas. Só que para dar forma a essa ideia, é preciso pensar e escrever uma proposta. Sem uma proposta escrita, a ideia se perde, os objetivos se confundem e um projeto promissor se arquiva.

Como afirma Patricio Guzmán, “uma ideia deve conter uma história em seu interior, um desenvolvimento dramático, algo parecido com um átomo, mas maior. Tem que estar prenhe de uma fábula. Precisa carregar uma história latente” (p.29, 2017). É o que buscaremos aqui na Oficina de Escrita e Estrutura Dramática para Projetos Documentais, com os seguintes objetivos:

– Assessorar o/a aluno/a no processo de elaboração do seu projeto, partindo da ideia inicial até a escrita de uma proposta.

– Apresentar os caminhos para um dispositivo narrativo que potencialize a busca narrativa do projeto.

– Construir a base estrutural do projeto, pensando na sua estrutura, nas formas de abordagem e nas condições de produção.

PÚBLICO ALVO

A oficina é direcionada para pessoas que pretendem realizar um filme documentário (curta ou longa metragem), que se encontram no processo inicial de elaboração da proposta ou em versão mais avançada do projeto.  

DURAÇÃO

2 meses – 10 encontros (de 9 de setembro até 11 de novembro)

Terças – 20h até 22h.

INFORMAÇÃO ADICIONAIS:

VALOR TOTAL: R$ 300,00 (Via Pix ou depósito).

INSCRIÇÃO: ra.valles@hotmail.com

Rafael Valles: Documentarista, pesquisador, docente, escritor. Doutor em Comunicação Social (PPGCOM/PUCRS – 2018), Doutorado Sanduíche na Facultad de Humanidades, Comunicación y Documentación, na Universidad Carlos III de Madrid. Mestre em Cinema Documentário pela FundaciónUniversidaddel Cine (FUC/ Buenos Aires, Argentina – 2011).

É professor na UNA (Universidad Nacional de las Artes, Argentina) e na Universidaddel Cine (FUC, Argentina), além de ter ministrado cursos para entidades como Museu da Imagem e do Som MIS-SP (Tendências do Cinema Documentário, 2023) e Instituto Estadual de Cinema IECINE (Repertório de Filmes Documentários, 2022).

Realizador dos filmes “Mario Arregui & Sergio Faraco – amizade sem fronteiras (2024) – Vencedor no Prêmio de Melhor Documentário Experimental no 18º Atlantidoc – Festival Internacional de Cine Documental de Uruguay (2024) -, “Frank &Plato e Empresa Pimenta: Futuristas Antiquados ou Todavia Crocantismo” (2023), “Ensaio sobre o grito” (2022) – Vencedor no Prêmio de Melhor direção em curta de animação no 9º Santos Film Festival (2023) -, “Em busca de Jonas Mekas” (2020), “Memorias de un sombrero” (2010), entre outros.

Autor da biografia “Fotogramas de la memoria – encuentroscon José Martínez Suárez” (Argentina, INCAA-ENERC, 2014) e do livro de contos “Ensaio sobre o grito” (Ed. Metamorfose, 2021). Também organizou o livro “50 olhares sobre o cinema gaúcho” (ACCIRS, 2022) e o ebook “Cinesofia: Estudos sobre audiovisual (2015-2017)” (EDIPUCRS, 2017).

Sessão Especial do filme “Mario Arregui & Sergio Faraco – amizade sem fronteiras”

Será realizada na próxima terça-feira (25/03), às 19h30, na sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim (Rua dos Andradas, 736), uma sessão especial do documentário Mario Arregui & Sergio Faraco – amizade sem fronteiras, com direção de Rafael Valles e narração dos atores Nelson Diniz e Roberto Carnaghi. Após a projeção do filme, vai ocorrer um bate-papo com o escritor e tradutor Sergio Faraco, o cineasta Rafael Valles e moderação da escritora Valesca de Assis. 

O filme aborda um período importante na trajetória dos dois escritores. Em 1981, Sergio Faraco entrou em contato com Mario Arregui porque queria traduzir para o português os contos do escritor uruguaio. Começava assim não só a criação do livro de contos “Cavalos do amanhecer” (1982), mas também uma profunda amizade entre eles, quase toda feita por cartas e que muitos anos depois redundou na publicação do livro Mario Arregui & Sergio Faraco – Diálogos sem fronteira (L&PM, 2009). Mario Arregui e Sergio Faraco – amizade sem fronteiras é um documentário que procura entender uma afirmação de Faraco sobre essa amizade: “ele foi o meu maior e mais querido amigo. E eu o vi apenas uma vez”.

Com uma abordagem poética e que procura resgatar fragmentos das cartas e recordações do escritor gaúcho, o documentário obteve o prêmio de Melhor Documentário Experimental no 18º Atlantidoc – Festival Internacional de Cine Documental del Uruguay (2024).  

A sessão é gratuita. O evento conta com o apoio da Cinemateca Paulo Amorim. 

Link do Trailer: 

Curso Online: “As estruturas dramáticas no Cinema Documentário” – 2ª Edição.

APRESENTAÇÃO

Ficção e documentário possuem muito em comum. Mais que entender as suas diferenças, é preciso identificar as suas conexões. Tanto na construção de conflitos, na progressão dos personagens, um documentário pode ir mais além do que simplesmente ser chamado como o “cinema do real”. Seja na elaboração de um roteiro prévio ou de um roteiro final durante a montagem, as escolhas narrativas num documentário também demarcam as intenções do realizador/a e como pretende mobilizar o olhar do espectador/a com os seus filmes. 

No entanto, são poucos os estudos que analisam o sentido dramático e de estrutura contido nas obras documentais. Centrada mais nas modalidades propostas por Bill Nichols (expositivo, reflexivo, observacional, participativo), a teoria sobre o gênero pouco analisa a estrutura dos filmes, as escolhas assumidas no processo de montagem. Como identificar as sequências que determinam a estrutura dramática de um filme? Como as escolhas narrativas são responsáveis por construir uma premissa ou um conflito central e subsidiários? Ou, até mesmo, como a intenção por subverter uma concepção mais clássica de estrutura acaba sendo responsável por um entendimento mais amplo sobre o tema?

O objetivo do curso é analisar o que se constitui como estrutura dramática no cinema documentário e como fatores relacionados a apresentação dos personagens e o seu desenvolvimento, a construção dos conflitos central e subsidiários, assim como a identificação da sua premisa contribuem para um entendimento sobre o gênero e o seu sucesso perante o público.    

PÚBLICO ALVO

Interessados em cinema de ficção e documentário. Não é necessário ter uma formação acadêmica ou profissional sobre o tema, para participar desta atividade.

METODOLOGIA

Os encontros serão no formato expositivo, com a última meia hora dedicada para a discussão sobre o que foi apresentado. Cada encontro se concentrará em um ou no máximo dois filmes, as obras serão projetadas e analisadas, mostrando fragmentos significativos do seu início, desenvolvimento e final, com intervenções do docente para destacar alguns aspectos que estão relacionados com a pauta de cada encontro.   

PROGRAMA

ENCONTRO 01 – a construção do conflito e das forças antagônicas.

ENCONTRO 02 – a progressão dramática nos documentários observacionais.

ENCONTRO 03– a construção do dispositivo narrativo e as suas digressões.

ENCONTRO 04 – documentários “true crime”: seguir ou não uma fórmula narrativa?

ENCONTRO 05 – as conexões entre autobiografia e filme-ensaio.

INFORMAÇÃO ADICIONAIS: 

DURAÇÃO: 5 encontros (terças, 4 de fevereiro a 4 de março, de 19h a 22h).

VALOR TOTAL: R$ 120,00 (Via Pix ou depósito).

INSCRIÇÃO: ra.valles@hotmail.com

OBS.: As classes serão gravadas e ficarão disponíveis online ao longo de uma semana após a sua realização, exclusivamente para as pessoas que se inscreveram no curso.

Rafael Valles: Documentarista, pesquisador, docente, escritor. Doutor em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PPGCOM/PUCRS – 2018). com Doutorado Sanduíche no Departamento de Periodismo y Comunicación Audiovisual, na Facultad de Humanidades, Comunicación y Documentación, na Universidad Carlos III de Madrid. Mestre em Cinema Documentário pela Fundación Universidad del Cine (FUC/ Buenos Aires, Argentina – 2011). É professor na UNA (Universidad Nacional de las Artes, Argentina). Já foi professor no Mestrado em Cinema Documentário (FUC-Universidad del Cine, Buenos Aires), no Curso de Cinema e Audiovisual e no Curso de Animação, na Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e no Curso de Cinema da UNISUL, além de ter ministrado cursos para entidades como Museu da Imagem e do Som MIS-SP (Tendências do Cinema Documentário, 2023) e Instituto Estadual de Cinema IECINE (Repertório de Filmes Documentários, 2022).

Realizador dos filmes “Mario Arregui & Sergio Faraco – amizade sem fronteiras (2024) – Vencedor no Prêmio de Melhor Documentário Experimental no 18º Atlantidoc – Festival Internacional de Cine Documental de Uruguay (2024) -, “Frank & Plato e Empresa Pimenta: Futuristas Antiquados ou Todavia Crocantismo” (2023), “Ensaio sobre o grito” (2022) – Vencedor no Prêmio de Melhor direção em curta de animação no 9º Santos Film Festival (2023) -, “Em busca de Jonas Mekas” (2020), “Memorias de un sombrero” (2010), “Amelia e Pippo” (2010), entre outros.

Autor da biografia “Fotogramas de la memoria – encuentros con José Martínez Suárez” (Argentina, INCAA-ENERC, 2014) e do livro de contos “Ensaio sobre o grito” (Ed. Metamorfose, 2021). Também organizou o livro “50 olhares sobre o cinema gaúcho” (ACCIRS, 2022) e o ebook “Cinesofia: Estudos sobre audiovisual (2015-2017)” (EDIPUCRS, 2017). Atualmente é integrante da ACCIRS (Associação de Críticos Cinematográficos do Rio Grande do Sul) e da Associação de Amigas e Amigos da Cinemateca Capitólio (AAMICCA).

A arte em descobrir “os pensamentos finais de um homem incomum” – Entrevista com Eduardo Escorel.

Por Rafael Valles

Afirmar que a história do cinema brasileiro passa pelo olhar criterioso de Eduardo Escorel não é nenhum exagero. Clássicos do Cinema Novo como “São Bernardo” (Leon Hirszman, 1972), “Terra em transe” (Glauber Rocha, 1968), Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade, 1969), assim como filmes fundamentais do cinema documentário como “Cabra Marcado para Morrer” (Eduardo Coutinho, 1984) e “Santiago” (Joao Moreira Salles, 2006), são uma prova da excelência do seu trabalho como montador.

Mas a sua carreira não se restringe a montagem cinematográfica. Colunista de cinema na Revista Piauí, crítico e docente com importante trajetória acadêmica, Escorel também realizou vinte filmes como diretor, com destaque para os documentários “Bethânia bem de perto” (co-dirigido com Júlio Bressane, 1966), “Vocação do poder” (co-dirigido com José Joffily, 2005), “Deixa que Eu Falo” (2007), “Imagens do Estado Novo 1937-45” (este documentário finalizado em 2016 conta com um extenso e precioso resgate de imagens de arquivo e uma importante análise sobre aquele período da história do país).       

Com “Antonio Candido, anotações finais” (2024), o desafio que tocou a Escorel foi o de retratar um dos grandes intelectuais que o Brasil já teve, autor de obras como “Literatura e sociedade” (1995), “Formação da literatura brasileira: Momentos decisivos” (2006), entre outros. Com uma narrativa bastante intimista, o cineasta não procurou analisar o legado de Antonio Candido ou fazer um filme biográfico, mas um retrato dos anos finais do sociólogo e crítico literário, a partir dos seus cadernos pessoais. O resultado é um belo filme que nos transporta para as reflexões (e inquietações) que tanto percorrem o cotidiano nos seus anos finais de vida (Antonio Candido veio a falecer em 12 de maio de 2017).      

Logo aqui abaixo, reproduzo uma entrevista que fiz por email com Escorel:  

Rafael Valles – O que te motivou a fazer um filme sobre os cadernos de anotações do Antonio Candido? Tu escolheu abordar no filme somente os cadernos escritos durante os anos de 2015 a 2017, sendo que ele escrevia seus diários íntimos desde os quinze anos de idade. Por que a escolha desse período? Chegaste a pensar em trabalhar com um período mais amplo dos cadernos?

Eduardo Escorel – Parti da suposição evidente de que as anotações deveriam ser valiosas por Antonio Candido ter sido quem foi. Era óbvio que precisaria limitar com quantos cadernos iria trabalhar, pois seria inviável fazer um documentário sobre o conjunto dos 74 cadernos remanescentes do total de 90 numerados, além de alguns temáticos, que Antonio Candido completou. Pensei, então, em transpor os dois últimos, número 89 e 90 – a hipótese foi que seriam especialmente interessantes por terem sido escritos durante o ano e meio final da vida. Nessa escolha, não influiu o fato de se referirem aos eventos políticos notórios do período que vai do final de 2015 até abril de 2017.

– Qual foi a tua primeira impressão ao ler esses cadernos? Encontraste um Antonio Candido familiar ou desconhecido?

• À medida que fui digitando o manuscrito, a minha hipótese foi sendo confirmada – havia ali reflexões, comentários, lembranças etc. preciosas. Fazer um documentário a partir dessas anotações pareceu fazer sentido, pois ofereceria a rara oportunidade de acesso aos pensamentos finais de um homem incomum, capaz diante da iminência da morte de refletir sobre uma ampla variedade de temas, uns inspirados por notícias de jornal, outros por preferências literárias e musicais, lembranças da infância ou a crise política do país etc.

– Como foi o processo de montagem do filme? A escolha em não fazer entrevistas com familiares e amigos (decisão muito acertada, por sinal), acabou tornando o trabalho mais desafiador no uso das imagens de arquivos e na edição do filme?

• Um desafio considerável foi encontrar na montagem a justa medida da estrutura narrativa fragmentada, resultante da decisão de seguir a ordem cronológica e preservar a variedade de assuntos das anotações. Havia, desde o início, a decisão de não dar voz a terceiros na forma de entrevistas. O objetivo era fazer um filme sobre Antonio Candido narrado por ele mesmo. E foi ao ler “O pranto dos livros”, breve texto escrito por ele, em 1997, quando estava prestes a fazer 79 anos, que encontrei a maneira de tornar essa opção possível – recorrer à ficção e Antonio Candido ser o narrador após ter morrido.

A montagem, feita em parceria com Laís Lifschitz, assim como a pesquisa no acervo fotográfico de Antonio Candido e Gilda, além de a pesquisa iconográfica em acervos brasileiros e estrangeiros, foi feita por nós, à distância, durante a pandemia – trabalho árduo e demorado, mas que nos ajudou a atravessar aquele período, buscando imagens que, na medida do possível, não fossem meras ilustrações do texto.

– O quanto ter montado “Santiago”, de João Moreira Salles ou outros trabalhos que tu trabalhou ou assistiu previamente serviram de referência para o processo de elaboração deste filme?

• Ter montado Santiago (2006) com Lívia Serpa foi um aprendizado importante para mim e pode ter influído em filmes que dirigi a seguir. Em especial, Deixa que eu falo (2007) que, como o título procura indicar, é um documentário narrado pelo próprio protagonista – Leon Hirszman (1937-1987) – sem entrevistas de terceiros. Em retrospecto, parece-me haver certa relação entre a forma narrativa de Deixa que eu falo e a de Antonio Candido, Anotações Finais.

– Gostaria que tu pudesses comentar um pouco sobre o processo das gravações com o ator Matheus Nachtergaele, pois a narração é também um dos pontos altos do filme, tanto na construção do tom como do ritmo.

• A narração é crucial em documentários de modo geral, mas ainda mais em Antonio Candido, Anotações Finais que é narrado do início ao fim, com poucas e pequenas pausas. Era essencial, portanto, ter o tom de voz e a cadência adequados. Durante a montagem, à procura de imagens, revi Onde a Terra Acaba (2002), de Sérgio Machado. Não me lembrava quem era o narrador do filme sobre Mário Peixoto. Ao ouvir a primeira frase gravada, porém, tive certeza de que aquela voz, que constatei ser de Matheus Nachtergaele, era perfeita para narrar Antonio Candido, Anotações Finais. E assim foi. Ele acertou o tom e o ritmo, sem maiores complicações, em apenas duas sessões de cerca de duas horas cada uma. Na montagem, micro ajustes foram feitos para harmonizar a cadência da voz com as pausas da música e as mudanças de plano.

– Existe nas escritas de Antonio Candido um tom muito pessoal que por vezes mostra um estado de luto permanente em relação a sua esposa Gilda de Mello e Souza, falecida em 2005. O quanto foi ou não difícil trazer alguns temas mais íntimos do personagem ao filme?

• Houve o cuidado de respeitar um limite quanto a questões pessoais e políticas, além do qual se considerou que o documentário estaria invadindo a privacidade de Antonio Candido.

– O filme enfatiza muito como Antonio Candido acompanhava cotidianamente os terríveis acontecimentos no cenário político brasileiro naquele período de 2015 a 2017, mesmo já retirado da vida pública. Sua trajetória como sociólogo, crítico literário e professor universitário também segue sendo uma referência para o meio intelectual brasileiro. Na tua opinião, o quanto faz falta para o Brasil de hoje pessoas como Antonio Candido?

• Creio que o filme deixa patente, entre outras coisas, a alta qualidade humana de Antonio Candido, traço tão difícil de encontrar no Brasil deste nosso tempo.

Nota Rafael Valles – Para quem quiser ler mais sobre o filme, também escrevi a respeito no link https://aterraeredonda.com.br/antonio-candido-anotacoes-finais-2/

Curso online – A HISTÓRIA ÍNTIMA DO CINEMA: DIÁRIOS e MEMÓRIAS DOS CINEASTAS

APRESENTAÇÃO

Escrever um livro de memórias ou publicar um diário de filmagem pode ser muito mais que um exercício de autocelebração. Nessas obras, encontramos seus autores frente as suas convicções, os seus temores, as suas apostas, os seus sucessos e fracassos.

Como afirma Luis Buñuel no livro Meu último suspiro (escrito em parceria com Jean Claude Carrière), “sou feito de meus erros e de minhas dúvidas, assim como de minhas certezas. Não sendo historiador, não recorri a nenhuma nota, a nenhum livro, e o retrato que proponho é, em todo caso, o meu, com minhas afirmações, hesitações, repetições e brancos, com minhas verdades e minhas mentiras; para resumir, minha memória” (p.15, 2009).  

Questões como a que traz Buñuel também suscitam muitas reflexões: como entender o cinema através de autobiografias, diários e memórias? Como descobrir o nascimento de um cineasta e o processo de criação através das suas recordações? Como cada realizador/a procurou lidar com o legado da sua obra cinematográfica? Como se construíram parcerias artísticas que determinaram trajetórias pessoais e profissionais?

O curso “A História Íntima do Cinema: Diários e Memórias dos Cineastas” pretende apresentar e analisar fragmentos de algumas destas publicações, com o objetivo de analisar como elas nos ajudam a entender um pouco mais sobre os autores/as e suas obras, o seu processo de criação e de que forma podemos pensar a história do cinema através de uma ótica mais íntima e pessoal.

Serão analisados fragmentos de livros de cineastas como Carlos Saura, Andrei Tarkovski, Werner Herzog, Ingmar Bergman, Akira Kurosawa, Luis Buñuel, Leni Riefenstahl, Chantal Akerman, François Truffaut, Luc Dardenne, Sidney Lumet, Jonas Mekas, entre outros.

PÚBLICO-ALVO

Para pessoas interessadas em cinema, audiovisual, literatura, estudos autobiográficos, história do cinema. Não é necessário nenhum pré-requisito para participar desta atividade, pois a abordagem do curso contempla tanto a pessoas que procuram se introduzir no tema, como a pessoas que já possuem um conhecimento maior sobre o tema.

METODOLOGIA

Os encontros serão realizados no formato expositivo pelo proponente do curso, através da exposição bibliográfica dos/as cineastas a serem abordados. Ao apresentar fragmentos dos diários pessoais, autobiografias e livros de memórias, assim como pontualmente alguns fragmentos de determinados filmes, cada aula será constituída por um ou dois tópicos que serão responsáveis por construir uma unidade temática. Cada encontro também vai possibilitar espaço para que os participantes do curso possam expor suas inquietudes, dúvidas e perguntas.

PROGRAMAÇÃO

Classe 01

– A motivação: quais foram as motivações que os/as cineastas tiveram para escrever e publicar uma autobiografia, um livro de memórias? A quem dedicam seus livros?   

– Os primeiros passos: como se introduziram no meio cinematográfico e realizaram seu primeiro filmes?   

Classe 02  

– O roteiro cinematográfico: as particularidades do processo de escrita, as motivações, as dificuldades, as diferentes versões de um roteiro, os projetos engavetados.   

Classe 03

– A direção de atores: os desafios, as parcerias e desavenças entre diretores e atores/atrizes, como os/as cineastas entendem o processo de criação dos atores.  

Classe 04

– A produção: os desafios e dificuldades na produção dos filmes.  

– A censura: como cada cineasta precisou enfrentar as adversidades com o Estado, como isso prejudicou a trajetória de determinados realizadores.   

Classe 05

– O legado: como os/as cineastas entendem a sua obra e as conquistas pessoais no meio cinematográfico.

– Conclusões: que impressões finais cada realizador/a alcançou frente ao processo de escrita do seu livro.  

INFORMAÇÃO ADICIONAIS: 

DURAÇÃO: Cinco encontros online (terças, de 1 a 29 de outubro, 19h30 às 22h).

VALOR TOTAL: R$ 100,00 (Via Pix ou depósito).

INSCRIÇÃO: ra.valles@hotmail.com

  • Todas as aulas serão gravadas e ficarão disponíveis durante o período de uma semana.

BIOGRAFIA

RAFAEL VALLES – Docente, escritor, pesquisador e realizador audiovisual. Doutor em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PPGCOM/PUCRS – 2018). Foi bolsista da CAPES (2014-2018) durante o doutorado e realizou Doutorado Sanduíche (Bolsa PDSE-CAPES) em 2017, no Departamento de Periodismo y Comunicación Audiovisual, na Facultad de Humanidades, Comunicación y Documentación, na Universidad Carlos III de Madrid. Mestre em Cinema Documentário pela Fundación Universidad del Cine (FUC/ Buenos Aires, Argentina – 2011).

Professor no Mestrado em Cinema Documentário, na Universidad del Cine (FUC, Argentina, 2023); no Curso de Cinema e Audiovisual e no Curso de Animação, na Universidade Federal de Pelotas (UFPEL, 2019) e no Curso de Cinema da UNISUL (2012). Ministrou diversos cursos de curta duração, entre os quais “As estruturas dramáticas no cinema documentário” (2024);  “Tendências do cinema documentário” (Museu da Imagem e do Som – MIS SP, 2023); “Oficina Repertórios de Documentários” (IECINE, 2022), referente ao projeto Revela o Rio Grande; “Filme-ensaio: a experiência do cinema” (Cine Um, 2016, 2017, 2024), “Cinema do Eu: filmes em primeira pessoa (Cine Um, 2019).

Autor da biografia Fotogramas de la memoria – encuentros con José Martínez Suárez (Argentina, INCAA-ENERC, 2014) e de artigos para revistas acadêmicas como Devires (UFMG), Contracampo (UFF), E-Compós (DF), Galáxia (PUCSP). Organizador dos livros 50 olhares sobre o cinema gaúcho (ACCIRS, 2022) e Cinesofia: Estudos sobre audiovisual (2015- 2017) (EDIPUCRS, 2017).

CURSO ONLINE: “AS ESTRUTURAS DRAMÁTICAS NO CINEMA DOCUMENTÁRIO”.

APRESENTAÇÃO

Ficção e documentário possuem muito em comum. Mais que entender as suas diferenças, é preciso identificar as suas conexões. Tanto na construção de conflitos, na progressão dos personagens, um documentário pode ir mais além do que simplesmente ser chamado como o “cinema do real”. Seja na elaboração de um roteiro prévio ou de um roteiro final durante a montagem, as escolhas narrativas num documentário também demarcam as intenções do realizador/a e como pretende mobilizar o olhar do espectador/a com os seus filmes.  

No entanto, são poucos os estudos que analisam o sentido dramático contido nas obras documentais. Centrados mais na abordagem das produções, nas suas modalidades (expositivo, reflexivo, observacional, participativo), a teoria sobre o gênero pouco analisa a estrutura dos filmes, as escolhas assumidas no processo de montagem. Como identificar as sequências que determinam a estrutura dramática de um filme? Como as escolhas narrativas são responsáveis por construir uma premissa ou um conflito central e subsidiários? Ou, até mesmo, como a intenção por subverter uma concepção mais clássica de estrutura acaba sendo responsável por um entendimento mais amplo sobre o tema?

O objetivo deste curso é apresentar e analisar como os/as documentaristas construíram não somente o seu discurso, mas sobretudo, como buscaram apresentar os seus personagens, como desenvolveram as suas histórias, como encontraram caminhos para emocionar, questionar ou provocar um outro olhar sobre o real.     

PÚBLICO ALVO

Interessados em cinema de ficção e documentário. Não é necessário ter uma formação acadêmica ou profissional sobre o tema, para participar desta atividade.

METODOLOGIA

Os encontros serão no formato expositivo, com a última meia hora dedicada para a discussão sobre o que foi apresentado. Cada encontro se concentrará em um ou no máximo dois filmes, as obras serão projetadas e analisadas, mostrando fragmentos significativos do seu início, desenvolvimento e final, com intervenções do docente para destacar alguns aspectos que estão relacionados com a pauta de cada encontro.    

PROGRAMA

ENCONTRO 01 – a construção do conflito e do antagonismo nos filmes de Michael Moore.

ENCONTRO 02 – a progressão dramática nos documentários observacionais.

ENCONTRO 03– o dispositivo narrativo e as suas digressões nos filmes de Jean Rouch.

ENCONTRO 04 – documentários “true crime”: seguir ou não uma fórmula narrativa?

ENCONTRO 05 – a construção associativa nos filmes de Agnès Varda e Patricio Guzmán.

  • Informação adicionais:  

DURAÇÃO: 5 encontros (terças, 2 a 30 de julho, de 19h a 22h).

VALOR TOTAL: R$ 100,00 (Via Pix ou depósito).

INSCRIÇÃO: ra.valles@hotmail.com

  • Rafael Valles: Documentarista, pesquisador, docente, escritor. Doutor em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PPGCOM/PUCRS – 2018). com Doutorado Sanduíche no Departamento de Periodismo y Comunicación Audiovisual, na Facultad de Humanidades, Comunicación y Documentación, na Universidad Carlos III de Madrid. Mestre em Cinema Documentário pela Fundación Universidad del Cine (FUC/ Buenos Aires, Argentina – 2011). Foi Professor no Mestrado em Cinema Documentário (FUC-Universidad del Cine, Buenos Aires, 2023), no Curso de Cinema e Audiovisual e no Curso de Animação, na Universidade Federal de Pelotas (UFPEL, 2019) e no Curso de Cinema da UNISUL (2012), além de ter ministrado cursos para entidades como Museu da Imagem e do Som MIS-SP (Tendências do Cinema Documentário, 2023) e Instituto Estadual de Cinema IECINE (Repertório de Filmes Documentários, 2022). Realizador dos filmes “Mario Arregui & Sergio Faraco – amizade sem fronteiras (2024), “Frank & Plato e Empresa Pimenta: Futuristas Antiquados ou Todavia Crocantismo” (2023), “Ensaio sobre o grito” (2022) – Vencedor no Prêmio de Melhor direção em curta de animação no 9º Santos Film Festival (2023) -, “Em busca de Jonas Mekas” (2020), “Memorias de un sombrero” (2010), “Amelia e Pippo” (2010), entre outros. Autor da biografia “Fotogramas de la memoria – encuentros con José Martínez Suárez” (Argentina, INCAA-ENERC, 2014) e do livro de contos “Ensaio sobre o grito” (Ed. Metamorfose, 2021). Também organizou o livro “50 olhares sobre o cinema gaúcho” (ACCIRS, 2022) e o ebook “Cinesofia: Estudos sobre audiovisual (2015-2017)” (EDIPUCRS, 2017). Atualmente é integrante da ACCIRS (Associação de Críticos Cinematográficos do Rio Grande do Sul) e da Associação de Amigas e Amigos da Cinemateca Capitólio (AAMICCA). 

Ayrton Senna e algumas memórias daquele trágico dia

por Rafael Valles

Hoje, há exatos trinta anos morria Ayrton Senna. Há trinta anos se construía um antes e um depois para a Fórmula 1, para os amantes do automobilismo, para a sociedade brasileira e também para mim. Ainda tenho presente momentos daquela manhã em 1994, porque estava assistindo a corrida pela televisão. Com 11 anos de idade e assistindo a Fórmula 1 numa época que foi inesquecível para os fãs brasileiros, nos meus pensamentos não existia outra possibilidade que não fosse a vitória de Senna em Ímola. Aquela era para ser a corrida da recuperação, a corrida para mostrar a Michael Schumacher quem era o tricampeão do mundo.

É por isso que ainda hoje me vem na memória a minha primeira reação ao fatídico acidente naquela manhã em 1994. Ao ver Senna bater no muro, ainda me lembro a situação insólita em ter me irritado, num primeiro momento. Na cabeça de um guri que nada sabia sobre tecnologia e aerodinâmica, só me vinha o imediatismo do resultado, de que com o terceiro abandono em três corridas, começaria a perder o campeonato. Sem ter noção da gravidade daquele momento, pela primeira vez encontrei o limite entre o herói e o humano. Já acostumado a acidentes contínuos nas corridas, pensei que Senna sairia do cockpit irritado com alguma falha do carro ou algum erro seu na tomada da curva. Passaram poucos segundos para perceber que a minha reação tinha sido idiota e inconsequente. Quanto mais tempo ele seguia no carro, mais era possível perceber que algo errado estava acontecendo. Ao ver ele sendo retirado da Williams, aí caiu a ficha de que a situação era muito grave.

A minha segunda memória daquele dia também ainda é muito presente. Me escondi na sala de casa e sozinho, comecei a rezar. Para um garoto acostumado a torcer por vitórias, a minha torcida era para que mesmo que ele não pudesse voltar a correr, que pelo menos pudesse sobreviver. Mesmo com o impacto da morte de Roland Ratzenberger um dia antes e com o terrível acidente de Rubens Barrichello na sexta feira (que soube ao chegar da escola, quando meus pais avisaram, num período que sequer existia a internet), também percebi a diferença entre perder um piloto e perder a Senna. Foi ele quem me fez madrugar para assisti-lo ganhar o tricampeonato no Japão em 1991. Era ele quem me fazia acordar cedo todas as manhãs de domingo para não perder a largada, sempre às 9h em ponto. E tudo isso eu assistia no meu quarto, no meu sofá-cama. Num certo sentido, Senna fazia parte daquele quarto, ele conduzia as minhas emoções, as minhas expectativas e fazia os domingos serem mais felizes. Após a sua morte, segui assistindo a Fórmula 1 (como sigo até hoje), mas a minha torcida se voltou para um outro foco: para os brasileiros e para as equipes do fundo do pelotão. Já não torcia mais por quem pudesse vencer, mas por quem pudesse trazer alguma história surpreendente em cada corrida. E foi aí que comecei a torcer não tanto por pilotos, mas por equipes como Tyrrell, Lotus, Minardi, Ligier, Simtek. Hoje penso que, talvez, isso ocorreu como uma reação inconsciente de que para mim só existiria um vencedor e que ele era insubstituível.    

Como a memória é seletiva, são esses os dois momentos que guardo daquele dia. Muito provavelmente algo parecido ao que ocorreu para milhares de brasileiros. Sequer me lembro como reagi a morte dele porque acredito que em certos momentos também surgem bloqueios emocionais, como uma auto defesa para tentar atenuar a dor intensa. Na tarde daquele mesmo dia meu pai me levou para jogar na escolinha de futebol do Juventude, por isso vim a saber a noticia tempos depois de ter sido anunciada. Mas sequer me lembro quem me disse ou como fiquei sabendo.

Duas semanas atrás retornei a essas memórias ao apresentar e analisar o documentário Senna (Asif Kapadia, 2011), numa aula sobre montagem e estrutura dramática. Nenhum dos alunos sabia quem era Ayrton Senna, o que num certo sentido foi um choque para mim (mas que fazia sentido, afinal, já se passaram 30 anos e os alunos também eram argentinos, com uma relação muito diferente com o automobilismo, se comparado aos brasileiros). Ao final da aula, a reação que tiveram foi de admiração, o filme gerou boas reflexões. E, por um momento, senti uma inveja positiva deles, que assistiam aquelas imagens pela primeira vez. As mesmas imagens que estive acostumado a assistir quando guri, na expectativa por ver o “Ayrton Senna do Brasil” fazendo história.

HÉCTOR ALTERIO, UN HERMOSO VOLVER

por Rafael Valles

La llamada publicitaria puesta en la página web del Teatro Astros anunciaba así el regreso de Alterio a Buenos Aires: HÉCTOR ALTERIO PRESENTA: A BUENOS AIRES – EN SU DESPEDIDA DE LOS ESCENARIOS ARGENTINOS. Para quien pudo acompañar los pasos de Alterio por Buenos Aires ahora, en abril de 2023, quizás pueda sumar un sentimiento más amplio que una despedida. Frente a sus 93 años de vida y con una energía de quien no parece dispuesto a colgar los botines, asistir  al espectáculo ofrecido por Alterio me trajo un sentimiento de celebración.

Celebración a una trayectoria, al hecho de volver a Buenos Aires después de diez años, a la posibilidad de reencontrar su acento porteño, sus pasiones.  Héctor y Tita seleccionaron para el espectáculo textos que son una celebración al tango, a la amistad, al deseo de volver. ¿Cómo no ser cautivado cuando Alterio recita Teoría de los buenos deseos, de Hamlet Lima Quintana?

Que no te falte tiempo

para comer con los amigos

partir el pan,

reconocerse en las miradas.

Deseo que la noche

se te transforme en música

y la mesa en un largo

sonido de campanas.

O entonces por Siempre se vuelve a Buenos Aires, hermosa letra escrita por Eladia Blázquez en una canción compuesta por Astor Piazolla.

Esta ciudad está embrujada, sin saber…

por el hechizo cautivante de volver.

No sé si para bien, no sé si para mal,

volver tiene la magia de un ritual.

La celebración también fue del público. De todos los públicos. En la primera función, al entrar en el escenario, Héctor fue recibido de pie, con aplausos que se mantuvieron contundentes por minutos. Al final de la presentación, más aplausos cargados de emoción. Días después, al llegar al salón del Centro Cultural Kirchner para recibir un homenaje como Personalidad Emérita de la Cultura por el Ministerio de la Cultura, Alterio fue recibido con gritos de “Olé, olé, olé, olé… Héctor, Héctor!”, como si de pronto las formalidades perdieran espacio para un cálido clima de hinchas al reencontrar a uno de sus cracks volviendo a casa.

Como extranjero, al asistir estos hermosos momentos, me enamoré de la pasión y del cariño que los argentinos manifestaron para un nombre referente de su historia. Cada abrazo que Alterio recibió en este homenaje parecía decir un contundente “¡cómo te extrañamos!”. Asistir al abrazo entre Alterio y Pepe Soriano trae esta dimensión de cómo las emociones fueron intensas (para quien lo quiera ver, el video está disponible en YouTube: https://www.youtube.com/shorts/Lq5aoBZUQ7o).

Si ya no fueran suficientes estas celebraciones, la más esperada de todas mostró por qué  Alterio es tan admirado y querido por el público y por sus colegas. Sobre el escenario, acompañado por el pianista Juan Esteban Cuacci y dirigido por su esposa y compañera de toda una vida, Angela Tita Bacaicoa, Héctor logró un trabajo con un gran virtuosismo actoral.

Cito acá un momento puntual del espectáculo, que dice mucho sobre su trabajo de interpretación, cuando Alterio recita el poema “¡Qué lástima!” del poeta español León Felipe. Hay un giro en el texto que aparece cuando se refiere a una niña (link para acceder al poema: https://www.zendalibros.com/lastima-leon-felipe/). Es una parte del texto que va del encantamiento a la tristeza. En él, Alterio maneja con maestría el tono de la voz y los tiempos de la lectura, carga de emoción el silencio entre cada palabra, subraya la imagen buscada por Leon Felipe que se mueve entre la alegría frente a esa niña que lo miraba desde la ventana, hasta la tristeza en ver, tiempo después, “como se la llevaban en una caja muy blanca…”. Entre momentos tan lindos de este espectáculo, es en “¡Qué lástima!” que llegamos al ápice. Ahí está su profunda unión con León Felipe, ahí está la entrañable conexión con el público que lo aplaudió con tanta calidez y con gritos de bravo. Alterio nos muestra cómo llenar de emoción y sutilezas la lectura de un poema, nos encanta con un virtuosismo que no necesita afirmarlo, pues entiende la medida, sin sobrepasarla.

Su proceso instintivo de composición, sin método preestablecido (No tengo método; tengo sudor y lágrimas, dijo al diario El País, en 2006) lo llevó al corazón de personajes que hoy hacen parte de la historia del cine argentino y español.

Cuando uno escucha su nombre, en seguida vienen a la cabeza personajes como José, el  anarquista (Caballos Salvajes, 1995), el viudo Martín Santome (La tregua, 1974), el soñador Nino Belvedere (El hijo de la novia, 2001), Roberto,  el complaciente con los americanos  (La historia oficial, 1985), el melancólico y solitario José (A un dios desconocido, 1977), el Don Alejandro, amante de música clásica (El nido, 1980). Mi cariño y admiración por el cine argentino también pasa mucho por sus personajes, por un actor que encontró en ellos, “una forma de encubrir su patológica timidez”, como dijo en su discurso en el CCNK. Nos toca agradecer también a su timidez por haber generado trabajos tan lindos en estas películas y en tantas otras obras cinematográficas y teatrales.

En la última función de A Buenos Aires, el pianista Juan Esteban y Héctor dedicaron el último poema para Angela Tita Bacaicoa, la gran responsable para que todo eso se volviera realidad. Este espectáculo es también una celebración a este profundo amor entre ellos dos. Si hace casi cincuenta años, Héctor y Tita vivieron momentos tan difíciles frente a la amenaza de la Triple A y a la necesidad del exilio para España, verlos ahora con A Buenos Aires celebrando su amor por Argentina y por Buenos Aires es también una celebración a la vida, al arte, a la cultura.

– Decir solamente gracias, sería poco. Decir no me lo merezco, sería mentira. Vuelvo a insistir, muchísimas gracias, no encuentro otra coleta que tenga esta palabra para cogerla así. ¿Qué más hay después de gracias? Están todos ustedes y eso para mí ya es fundamental – dijo Alterio en el homenaje, tras recibir la placa de las manos de TristánBauer, ministro de Cultura.

Si Héctor va a volver en un futuro próximo a Buenos Aires, sea para una nueva película, sea para un nuevo trabajo o para un simple paseo de vacaciones, uno no lo sabe. Lo que sí se puede decir es que valió la pena haber esperado todos estos años por su regreso. Alterio escribió un nuevo y lindo capítulo de su historia en Argentina. Fue para mí un privilegio poder testimoniar y disfrutar cada momento de ella siendo escrita.

¡Mil gracias Héctor y Tita!